COMENTÁRIO/ENSAIO
EXISTIRÁ VIDA APÓS A MORTE?

Existe vida para além da morte? Deixaremos simplesmente de existir, ao morrermos? Se um homem morre, viverá ele de novo? (Job 14, 14)

Demócrito e Epicuro são dois dos poucos grandes filósofos antigos que claramente disseram não existir alma ou vida para a além da morte. Para eles, e para os materialistas antigos, a alma e as sensações eram indissociáveis do corpo, e desapareciam com ele. «A morte, para nós, é um nada; porque quando o corpo se dissolver nos seus elementos, não haverá mais sensações, e o que é destituído de sensações nada é, para os seres humanos» (Epicuro)

Lucrécio, um discípulo de Demócrito e Epicuro, é extremamente radical a este nível. Para ele a alma não existe, o inferno é uma invenção e o medo de punições e dos deuses uma atitude estúpida. «Tudo o que as fábulas contam sobre a vida pós morte está aqui, nas nossas vidas. (…) É aqui nas nossas vidas que o medo irracional aos deuses ameaça os mortais».

Curiosamente, na Bíblia, no Antigo Testamento, existem também sinais de dúvidas sobre a imortalidade da alma. «Todos saíram do pó e ao pó hão-de voltar». «Quem sabe se o sopro de vida dos filhos dos homens subirá às alturas, e o corpo da vida dos animais descerá ao fundo da terra?», avança-se no Eclesiastes.

Mas são posições declaradamente marginais, quer a nível religioso e filosófico, quer a um nível mais geral. A posição largamente dominante em todas as sociedades e culturas, sempre foi a da crença da imortalidade da nossa alma. Autores como Dostoievsky colocaram a hipótese de a vida em sociedade ser impossível, sem a crença colectiva na imortalidade: «Se destruíres a crença humana na imortalidade, o amor e todas as forças vivas que mantêm a vida do mundo ficarão irremediavelmente apagadas».

O cristianismo apenas reforçou e formalizou ainda mais a crença humana na negação da morte. «Eu sou a Ressurreição e a Vida. Aqueles que acreditam em mim, mesmo que morram como os demais, viverão de novo. E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá para sempre», disse Cristo.

Na Idade Média, e no Renascimento, a dúvida não estava tanto na nossa imortalidade, e na existência de uma vida para além das nossas vidas de mortais, mas na natureza do céu, das recompensas e dos castigos que esperavam aqueles que deixavam a existência terrena.

Alguns místicos, superlativaram o que na Carta a Coríntios se afirmou: «Nenhuns olhos viram, nenhuns ouvidos ouviram, e nenhuma mente imaginou o que Deus preparou para aqueles que O amam». É o que faz John Donne, no século XVII: «Os mortos acordarão como Jacob acordou, (…) e nos portões do céu entrarão, e nessa casa viverão, lá onde não haverá Nuvem ou Sol, escuridão ou claridade, mas luz, lá onde não haverá barulho ou silêncio, mas música, lá onde não haverá medos ou esperanças, mas fruição, lá onde não haverá inimigos ou amigos, mas comunhão e identidade, lá onde não haverá fins ou princípios, mas eternidade».

Subsistem, de qualquer modo, interrogações persistentes, no plano da vida extra-terrena. Como conceber a vida humana pós-morte? A Bíblia, na primeira Carta aos Coríntios, coloca esse problema: «Mas, dir-se-á, como ressuscitam os mortos? Com que corpo regressam?»

Tornar-se-ão os maus em bons, negando-se e transformando-se? Será que só os bons ressuscitam e gozam de imortalidade? Haverá castigo? E inferno?

São perguntas que merecem respostas desencontradas, mesmo nos meios cristãos. Em relação à questão do inferno, por exemplo, alguns teólogos mais fundamentalistas consideram-no inevitável. «A ausência de inferno seria o cúmulo da injustiça, porque seria conceder o mesmo fim a São Vicente de Paula e a Marat, Judas, Nero ou Messalina. Os últimos quatro encontram-se lá, sem dúvida, e substituir o inferno pelo purgatório seria igualmente muito injusto», considerou um destacado padre francês do século XIX.

Para muitos autores, ao invés, a natureza e a bondade divina, pressupõe o perdão e a reconciliação. Não pode haver continuidade e transposição de vícios e situações terrenas. Não tem sentido dar excessiva importância à maldade e crime dos homens: «Todos os crimes merecem, claro está, ser tratados com misericórdia: todos fazemos o que podemos, e a vida é demasiado dura e demasiado cruel para condenarmos todas as nossas quedas.» (Compte-Sponville).

 

 

 

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