COMENTÁRIO/ENSAIO
A VIDA TEM SENTIDO?

Montaigne conta-nos uma curiosa história, nos seus Ensaios. Uma história envolvendo Pirro, um velho filósofo antigo e as suas reflexões. Uma história envolvendo vários homens e um porco, num navio que enfrenta uma tempestade marítima. Uma história em que os homens perdem a compostura, sofrem com os medos associados à tempestade, enquanto o porco mostra uma indiferença e uma calma superior.

Moral da história: a nossa consciência e inteligência podem ser uma maldição. Ao nos questionamos e tomarmos consciência das nossas fraquezas, da morte, do sofrimento, das desgraças, ficamos infelizes, e o sentido da vida (expresso por sentimentos de harmonia, bem-estar, satisfação, felicidade) diminui ou perde-se.

Noutros termos, na Bíblia, há versos que encerram a mesma conclusão: «Na muita sabedoria há muita arrelia, e o que aumenta o conhecimento, aumenta o sofrimento», diz-se no Eclesiastes, onde também se pode ler: «Não queiras ser excessivamente justo nem demasiado sábio: para quê arruinares-te?»

São versos que podemos recusar, e achar excessivos ou infelizes, mas que não deixam de ter um lado pertinente, ao apontarem para o lado maldito da nossa memória e inteligência. Ele pode perverter e roubar sentido à vida.

A nossa inteligência leva a que nos questionemos, nos interroguemos, e a consciência dos nossos males e fragilidade podem levar à tristeza, à angústia existencial.

Só que… negarmos o nosso pensamento é negarmos a nossa própria dignidade. A minha dignidade segue a direcção do meu pensamento, disse Pascal, a propósito. Levar-se à letra as palavras do Eclesiastes ou a conclusão moralista da história do porco de Montaigne, seria cair ao nível de uma vida inferior.

John Stuart Mill responde directamente à história do porco de Pirro e Montaigne, num famoso excerto: «É melhor ser um homem insatisfeito do que um porco satisfeito; é melhor ser um Sócrates insatisfeito do que um louco satisfeito. O louco e o porco podem considerar o contrário, mas eles apenas podem ver a questão pela sua perspectiva. Só nós, podemos estabelecer a comparação, já que só nós podemos perceber as duas perspectivas.»

Sem inteligência e sentido moral, caímos num mundo puramente mecânico. No extremo, cairíamos num mundo de zombies, onde o sentido da vida se perderia, onde não haveria mal nem bem, nem felicidade nem sofrimento. Como diz Robert Wright, «num imaginário planeta dezombies, destituído de sentido, os Pol Pots e Hitlers e Estalines do mundo seriam incapazes de realizar o mal; por muito destrutivos que fossem, não poderiam infligir sofrimento, evitar a felicidade, afrontar a dignidade». 

Seja como for, não somos os seres acéfalos referidos por Robert Wright, nem estamos próximos da vida de outras espécies animais. Somos seres dotados de inteligência e consciência, e, por isso, seres que oscilam entre a felicidade e a infelicidade. O sentido das nossas vidas acaba, em parte, por depender da nossa consciência, inteligência, liberdade. Ou, noutro ângulo, das nossas escolhas, dos nossos valores, das nossas opções, das nossas crenças.

Naturalmente, há também um elemento determinista que não podemos minimizar e que mergulha no fundo na natureza da nossa mente e dos equilíbrios do nosso corpo. Os nossos «estados psicológicos de exaltação estão ligados ao optimismo, os estados depressivos ao pessimismo e, quando passamos de uns aos outros, o nosso mundo torna-se ora um mundo de miséria, fracasso e tragédia, ora um mundo de bem-estar, plenitude e felicidade» (Edgar Morin). Por outras palavras: há transmissores químicos que comandam os nossos estados psicológicos…

É certo que esses transmissores químicos dependem em parte de nós, do ambiente em que vivemos, na medida em que podem ser activados ou desligados por via das nossas filosofias de vida e pelos valores que escolhemos, e pelos pensamentos positivos ou negativos que temos. Nesta perspectiva, a amizade e o amor que conseguirmos criar nas nossas vidas, ou a nossa eventual crença em Deus, ou a nossa forma de viver a arte, ou outros factores, podem dar sentido à vida – ao activarem os transmissores neuro-cerebrais que nos conferem os sentimentos de felicidade.

Mas esses transmissores químicos também se podem sobrepor aos ambientes que nos rodeiam ou que nós criamos, sem o consigamos evitar. E podem fazê-lo, num sentido positivo, dando-nos uma satisfação, uma plenitude, uma harmonia, que é independente das condições em que vivemos. Ou num sentido negativo, associando-se a certas doenças e desequilíbrios químico-cerebrais, geradores de psicoses e estados psicológicos depressivos, ou, mais simplesmente, insatisfação e ansiedade. 

E a assim ser, a vida perde ou ganha sentido através dos transmissores químicos que pulsam no nosso cérebro...

 

 

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