COMENTÁRIO/ENSAIO
ILUSÃO E CONSCIÊNCIA

George Berkeley, no século XVIII, chegou a duvidar do mundo material. Melhor: para ele o mundo físico - montanhas, casas, pessoas - não existia… Eram ilusões, eram ideias. Para Berkeley só existiam ideias.

É uma concepção extrema e um tanto marginal, que contraria muitas evidências, e que na época suscitou reacções calorosas de repulsa. Conta-se que um famoso escritor da altura, chamado Samuel Johnson, reagiu às teses de Berkeley dizendo: «Eu refuto-o facilmente!» E deu um pontapé numa pedra, que o pôs a coxear.

Incomparavelmente mais consensual é a ideia de que somos propensos a viver na ilusão, na fantasia, no sonho, e de que isso é uma forma de fugir à realidade hostil, à crueldade da vida, da morte, do desinteressante.

A plena lucidez é muito intermitente, e só se verifica a espaços. A verdade do nosso conhecimento ou das nossas posições é muito limitada. É uma ideia muito antiga. Demóstenes, no século IV a. C., considerou que «Nada é mais fácil do que a auto-ilusão: todo o homem deseja que aquilo em que acredita seja verdade».

Mas há opiniões ainda mais radicais: «Os homens têm sempre lutado contra a realidade com todas as suas forças», considera Jean Servier. E Morin, na mesma linha: «A ilusão atravessa toda a história, todas as sociedades, todos os indivíduos, e os espíritos, mal saem de uma desilusão, estão prontos para cair noutra».

Ou seja: para estes autores, o homem tende a viver num mundo de mitos, de fantasias, distantes da realidade, o que é fonte de conforto existencial, e uma forma enviesada de dar sentido às suas vidas.

Por isso, e no dizer de Freud, devemos agradecer às ilusões. E aceitá-las sem queixumes, se porventura colidem com a realidade e se desfazem em pedaços. Elas são, afinal, uma forma de dar sentido à vida.

Seja como for, e por muito relevante que seja a ilusão e o sonho nas nossas vidas, a consciência não deixa de espreitar e de ter um lugar nas nossas existências.

Os nossos próprios pensamentos sobre a ilusão e os sonhos em que vivemos, são uma prova dessa «chamazinha bruxuleante», de que fala Edgar Morin.

Quando na Bíblia, no Eclesiastes, se afirma repetidamente que «tudo é ilusão e correr atrás do vento», por detrás dessa alusão a um certo tipo ilusão - a ilusão existencial, ligada à procura de prazer e de riqueza, que acaba por se esfumar e se reduzir a nada - está presente a nossa consciência de tal: a consciência da ilusão, e, portanto, a negação da ilusão.

 

 

 

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