COMENTÁRIO/ENSAIO
JUVENTUDE, VELHICE E FELICIDADE

É muito frequente associar-se a juventude aos dias felizes, e a velhice a dias mais difíceis, ou à infelicidade que ronda as nossas existências.

Faz parte da tradição antiga, literária, filosófica, e também popular. «Nada é mais desonroso do que um homem velho, vergado pelos anos, sem outra prova de que viveu a não ser a da sua idade», disse Séneca, há dois mil anos atrás, transmitindo uma opinião corrente. «Diverte-te enquanto puderes e estiveres na Primavera da vida», aconselhou Ovídio, sensivelmente na mesma altura.

Há, no entanto, opiniões contrárias, ou mais matizadas sobre a felicidade e a sua interligação à questão da idade. A juventude pode não ser uma fase da vida tão feliz como tantas vezes se diz, nem a velhice tão impregnada de juízos de medo e pejada de juízos sobre a falta de sentido da vida.

Nem todos os jovens experimentam a plenitude de que Conrad fala: «Recordo-me da minha juventude e do sentimento que nunca me abandonará - o sentimento de que eu podia durar para sempre, e ultrapassar todos os mares, e toda a Terra, e todos os homens; o enganador sentimento que nos chama às alegrias, aos perigos, ao amor, ao esforço vão - a morte; a triunfante convicção de força, o calor da vida na mão cheia de pó, a chama do coração que depois se esbate a cada ano, tornando-se fria, diminuindo para finalmente expirar - expirar demasiado depressa, demasiado depressa - antes da própria vida.» 

Bernard Lovell, por exemplo, apresenta outra perspectiva: «A juventude é vívida, mais do que feliz, mas a nossa memória retém sobretudo as coisas felizes».

Por outro lado, a nossa felicidade ou infelicidade passa por valores, pela nossa sabedoria, expressa na forma como encaramos e controlamos a vida, e os nossos pensamentos e sentimentos. A felicidade depende, nesta perspectiva, daquilo que se passa nas nossas mentes. Tem a ver com filosofias de vida. E, a assim ser, a idade pode contar pouco, ou bastante menos do que se diz. Ou não seguir directamente o sentido da idade…

Os antigos filósofos estóicos costumavam defender isso mesmo. Cícero refere-o, no seu ensaio sobre a velhice (De Senectude): «A idade, quando honrosa, tem uma autoridade que vale mais do que os prazeres da juventude». 

E a assim ser, o nosso fim não tem que ser necessariamente tão negro quanto o apresentado por Shakespeare na sua comédiaComo Quiserem. «A derradeira cena, término da memorável história da vida, é a segunda infância, a do puro esquecimento, a da falta de dentes, de visão, de paladar, rumo ao nada.»

 

 

 

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