COMENTÁRIO/ENSAIO
VIDA E HUMOR

Rir dos outros, dos seus erros, das suas contradições, pode ser sinal de insensibilidade e grosseria. Mas rirmos de nós próprios, e das incoerências presentes nas nossas vidas e pretensões, ou rirmos da vida do homem em geral, pode ser sinal de sensibilidade e abertura.

Como diz Compte-Sponville, «quem faz de si próprio uma estátua - para sua glória humana ou como louvor à sua lei - não se pode queixar de ser suspeito de ter um coração duro ou de estar a fazer pose.» Quem não for capaz de, em determinados momentos, rir de si e da sua vida, quem não for capaz de ver uma certa comédia humana na sua vida e na dos outros, ou está muito ferido, ou envelhecido, ou vive no primarismo mental.

Não podemos levar tudo a rir, porque a vida tem um elemento duro e por vezes trágico. E também porque as nossas convicções e as nossas vidas – no que elas têm de autêntico e humilde - merecem o nosso respeito, e o dos outros.

Mas há momentos em que o riso é salutar – momentos que podem, porventura, corresponder aos nossos momentos de maior lucidez.

Todos somos seres frágeis, sujeitos aos caprichos da sorte, às limitações dos nossos cérebros, ou aos nossos medos, o que alimenta mitos, pecados, ilusões, comportamentos quiméricos, incoerências entre o que se diz e o que se faz… Tudo isso faz parte das nossas vidas, e pode merecer o nosso riso.

Encarar seriamente a vida, reflectir sobre o seu sentido, é, no fundo, também sermos também capazes de rir das nossas contradições, e de introduzir – para bem da nossa saúde mental – pausas de riso na realidade séria das nossas vidas.

 

 

 

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