ENSAIO/COMENTÁRIO
A FELICIDADE É POSSÍVEL E DURADOURA?

«Não será justamente a felicidade o que todos querem, sem excepção?», interrogava-se Santo Agostinho, no século V. «Todos somos iguais no nosso desejo de sermos felizes e de ultrapassarmos o sofrimento», considerou, nos nossos dias, o Dalai Lama, expressando uma resposta praticamente unânime e consensual.

Mas será que a felicidade é possível? E em que termos?

As respostas são, naturalmente, desencontradas. Goethe, por exemplo, afirma que a felicidade existe mas nunca é duradoura, que muitas coisas podem durar mas nunca a contínua felicidade. É uma resposta tão consensual quanto a que o Dalai Lama dá da nossa procura e desejo de ser felizes. A dor, os medos, e a ansiedade espreitam constantemente, sempre prontas a quebrar os nossos períodos de felicidade.

Já a posição de Pascal, um pensador cristão do século dezassete, é bem menos consensual. Para Pascal a felicidade não é possível: «Não é necessário grande educação do nosso espírito para perceber que aqui não há real e duradoura satisfação, que os nossos prazeres são apenas vazios, que os nossos males são infinitos», disse.

Apesar da sua crença intensa em Deus, e ao contrário de Santo Agostinho, citado atrás, Pascal não conseguiu a paz interior, a certeza, e a iluminação. Para ele a fuga à realidade cruel do mundo era impossível, apesar das nossas tentativas em contrário. «O rei está rodeado de pessoas cujo único pensamento é divertir o rei, e evitar que ele pense em si mesmo. Porque ele será infeliz, embora rei, se pensar em si mesmo», considerou Pascal, numa linguagem em parte metafórica.

Faltou a Pascal, eventualmente, a «boa saúde e a má memória», consideradas por Ingrid Bergman como essenciais para a felicidade. A doença e a forte dor física que ela lhe provocou, podem ter pesado bastante nas suas posições, tanto quanto o questionamento que ele fez à nossa situação existencial.

Faltou-lhe também o espírito de Santo Agostinho, o convencimento e a fé militante e iluminadora, para o que muito pode ter contado a época – a ciência, no século XVII, esboçava os seus primeiros passos, o pensamento secular começava a substituir o pensamento místico que Santo Agostinho introduzira... O mundo humano começava a não ser tão ditado pela Igreja e pela fé. Em vez de um mundo que era uma emanação de Deus, a ciência estava a revelar um mundo de infinitas galáxias, incompreensível ao homem, que muito negativamente impressionou e angustiou Pascal.

No fundo, a felicidade tem também muito a ver com as nossas ideias e filosofias de vida, e Santo Agostinho e Pascal demonstram-no à saciedade. É bem evidente o impacto negativo das ideias e concepções existencialistas de Pascal sobre a sua angústia existencial. Do mesmo modo é também evidente o peso das ideias religiosas de Santo Agostinho, aparentemente não muito diferentes das de Pascal, na felicidade que ele sentiu após a sua conversão ao cristianismo.

Curioso, também, é como as ideias podem variar, e serem recuperadas ou renegadas. “Meu Deus, dai-me castidade, mas não já!», pedira Santo Agostinho, anos antes da sua conversão ao cristianismo, numa reverência aos prazeres mundanos. «Longe de mim, longe do coração do teu servo, Senhor, que a ti se confessa, a ideia de encontrar a felicidade não importa em que alegria!», considerou ele, já convertido.

As concepções de Pascal e de Santo Agostinho são também particularmente exemplificativas do fundo contraditório em que se situa para nós, seres humanos, a felicidade: os momentos de felicidade e infelicidade alternam-se, e tudo pode mudar drasticamente, de um momento para o outro, para melhor ou para pior. Ou como diz Edgar Morin: «A aptidão do homem para sofrer é comparável à sua aptidão para gozar, a sua aptidão para a desgraça é inseparável da sua aptidão para a felicidade».

Demonstram, por outro lado, que a fé em Deus não é suficiente, nem condição necessária ou única para sermos felizes. Foi-o para Santo Agostinho. Não o foi para Pascal. É algo que parece sancionar as palavras do Dalai Lama: «A chave para um mundo mais feliz é a compaixão e o amor. Não necessitamos de ser religiosos, nem necessitamos de acreditar numa ideologia. Tudo o que necessitamos é de desenvolver as nossas boas qualidades humanas.» São palavras que devem merecer a nossa reflexão.

 

 

 

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