COMENTÁRIO 
O PENSAMENTO EXISTENCIAL AO LONGO DOS TEMPOS

O homem sábio, em muito da filosofia oriental, é aquele que é capaz de extirpar de si os sentimentos. É o que se isola da sociedade e se refugia em si, procurando uma vida que os ocidentais classificariam de vegetativa.

No antigo mundo romano, os filósofos estóicos defenderam o controlo das nossas paixões, sentimentos e pensamentos negativos, a superação do eu, como forma de superar a infelicidade. Mas nunca se propôs o vácuo de ideias e de sentimentos, como se faz em textos orientais.

Na civilização ocidental, há uma poderosa tradição de pensamento questionador, que se sobrepõe à constatação de que o saber e o pensar no futuro e a vida pode ser fonte de infelicidade. Sócrates proclamou-se enfaticamente: “Uma vida não questionada não merece ser vivida.“

A nossa dignidade, para a filosofia ocidental, está no nosso pensamento. «Mesmo que o pensamento seja uma doença, mesmo que a humanidade seja desafortunada, essa doença e esse infortúnio são nossos - eles são o que nós somos, e existimos através deles» (Compte-Sponville). 

E exactamente porque apostam no pensamento activo e questionador, as reflexões ocidentais sobre a nossa existência e o sentido da vida são bem mais variadas e ricas do que as orientais.

Após o longo interregno medieval, a partir do Renascimento e do momento em que o pensamento ocidental começa a perder o seu carácter religioso, o pensamento existencial ocidental renasce em força, de novo, tanto mais que a ciência moderna introduz novos dados sobre a nossa situação no Universo.

Pensamentos como o de Pascal, no século XVII, sobre a natureza das nossas vidas, e o nosso papel no cosmos, são particularmente contemporâneas: «Não há razão para eu estar aqui em vez de lá, ou para ser agora e não depois ou antes. Quem me pôs aqui? Por ordem de quem e em que direcção este lugar e tempo me foi atribuído?»

Embora o Renascimento produza reflexões optimistas sobre a vida… não deixa de permanecer um certo pessimismo existencial, comum ao pensamento antigo. E percebe-se porquê. A visão que a ciência começa a dar da vida não é tranquilizadora. O cosmos é demasiado grande e nós insignificantes nadas…

É uma visão desencantada e pessimista que se acentua ainda mais com o aparecimento das concepções darwinistas, revelando que afinal o homem não tem um lugar à parte na rede dos seres vivos. que não somos os seres excepcionais, sobrenaturais, ou racionais e à sombra de Deus que julgávamos ser.

Daí, portanto, a proliferação de pensamentos negativos sobre a nossa insignificância e o nada das nossas existências, retomando sobre bases novas pensamentos já expressos na literatura, na filosofia ou na Bíblia e outros textos religiosos.

Onde o pensamento contemporâneo mais se distingue do antigo, é numa certa mordacidade e humor em relação à vida e às suas contradição. O pensamento contemporâneo realça o carácter teatral da vida, já antecipado por escritores como Shakespeare… mas levado a um extremo e com características novas…

«A vida é um cabaret, velho companheiro. Bem vindos ao cabaret». «No fim é tudo uma gargalhada». «A vida é apenas uma maldita de uma coisa atrás de outra». «Há duas tragédias na vida. Uma é não se ter o que o coração deseja. A outra é ter.»

São pensamentos típicos, associados à consciência da contradição presente nas nossas almas e vidas, à contradição que existe entre os nossos sonhos de imortais e a nossa condição de mortais, à dicotomia que se pode detectar entre a vida real e a vida sonhada – realidades que já foram sentidas no passado mas que explodem de uma forma sarcástica e sem censuras no presente.

 

 

 

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