COMENTÁRIO/ENSAIO
ESTRANHOS NO COSMOS

As interrogações dos primeiros filósofos gregos – Tales de Mileto, Anaximandro, Empédocles… - envolveram o Universo: qual é a forma da Terra? Qual os princípios ou composição das coisas? Por que há o mundo, por que não há o nada?

Antes dos gregos, numa linha igualmente especulativa, e particularmente moderna, também os hindus se interrogaram sobre a criação do Universo: «Nenhum ser foi capaz de fazer este mundo sozinho. Como poderia um deus imaterial criar o que é material?» «Como teria podido Deus fazer o mundo, sem matéria-prima?»

Mas no geral, as perguntas e as respostas mais antigas, sobre o Universo, a sua natureza, e o papel do homem nesse mesmo Universo, foram fundamentalmente míticas e fantasiosas.

Os romanos viam nas estrelas que brilhavam e se deslocavam no céu, o trânsito das almas dos mortos, enquanto os antigos egípcios viram nos céus uma espécie de travessa, que copiava o Nilo e a geografia do seu mundo terreno.

Não eram, no fundo, visões muito diferentes, da visão poética transmitida pela poesia de Shakespeare, quando designa as estrelas como «velas da noite», ou da de Byron, quando descreveu a Via Láctea como uma «enorme e ampla estrada cuja poeira é ouro e o pavimento estrelas».  

As visões encantadas e fantasiosas do Universo começaram a rarear no século XVII. Quando, em 1690, Christian Huygens, especulou sobre a «existência de um grande número de Terras habitadas como a nossa, e como a nossa tão belas», a concepção que subjazia às suas especulações tinham pouco a ver com a poesia de Shakespeare, ou com as míticas visões anteriores. Huygens estava influenciado pelas visões modernas do Universo, protagonizadas por um Kepler ou por um Galileu.

Feynman, um destacadíssimo físico contemporâneo, critica a incapacidade dos poetas em cantarem a estranha composição do Universo revelada pela ciência: «Que homens são os poetas que falam de Júpiter como se ele fosse um homem, mas que calam o facto de ele ser uma imensa esfera de metano e amoníaco rodando sem cessar?», perguntou.

A resposta a tal não é difícil: a visão científica do Universo não impressiona favoravelmente a nossa alma. O Universo revelado pela ciência é profundamente inumano. Não é fácil a poesia cantá-lo…

O nosso lugar no Universo, de acordo com a visão científica, é puramente acidental, gratuito. «A Física descobriu no Universo furor, violência e guerra, com explosões e implosões de astros, choques de galáxias, estrelas que se entreparasitam e se entredevoram canibalescamente» (Edgar Morin).

A ciência revela-nos que o universo não foi criado para nós, e que nem temos qualquer papel significativo nele, ao contrário do que os nossos mitos ancestrais consideravam. As representações do Universo a raios gama, a raios X, ou a infravermelhos, e as ilações da moderna cosmologia, nada têm a ver com o que os nossos olhos espontaneamente detectam, e com aquilo que os nossos sonhos gostariam que o mundo fosse.

Blaise Pascal, no século XVI, acrescenta elementos novos à reflexão existencial tradicional, ao incorporar nela as revelações da ciência moderna. Pascal ficou atónito e angustiado ante as primeiras descrições de um universo infinito, composto por biliões de estrelas, em que a Terra e o homem são pontos insignificantes. Os seus pensamentos sobre tal são de uma actualidade extrema e particularmente representativos das nossas interrogações e especulações face a um Universo cuja essência permanece para nós desconhecida, mas que sentimos como cruel, esmagador, e incompreensivelmente grande e longo, fazendo de nós e das nossas breves vidas simples migalhas microscópicas.

Os elementos mais recentes, trazidos pela ciência, também estão longe de serem confortantes. Charles Darwin, no século XIX, revelou a uma humanidade incrédula que somos descendentes de outras espécies, de símios, e, em última análise, descendentes de bactérias. E a ciência das últimas décadas revelou que somos também descendentes de átomos formados no interior das estrelas e ejectados por elas para o vazio interestelar.

Face à anterior visão mítica ou religiosa, a visão científica do universo pode de facto ser desconfortável. Mas repare-se na forma como Pascal expressa o seu espanto angustiado: «Quando considero a curta duração da minha vida, e o estar a ser engolido pela eternidade do antes e depois, ou o pouco espaço que eu preencho e vejo, mergulhado na infinita imensidade que ignoro e que não me conhece, tenho medo e espanto-me de estar aqui em vez de estar algures».

E repare-se a forma como um cientista como Michel Cassé descreve a nossa ligação ao universo, e o facto de sermos literalmente filhos das estrelas: «Quando bebemos uma gota de água, bebemos o universo, pois a molécula da água, o H2O, reúne, no seu seio, o hidrogénio - vestígio da explosão inicial, ou Big Bang -, e o oxigénio, produzido na fornalha das estrelas e exalado por elas». «As partículas que se constituíram no início do Universo, esses átomos que se forjaram nas estrelas, essas moléculas que se constituíram na Terra ou noutro sítio… tudo isso também está dentro de nós».

E medite-se na forma como Edgar Morin descreve a dinâmica da formação das constituintes do Universo: «Sem cessar apagam-se ou explodem sóis, congelam-se planetas; cem cessar, reúnem-se fragmentos e poeiras de astros mortos, girando em espiral sobre si mesmos para dar nascimento a novas galáxias e a novos sóis».

Não haverá autêntica poesia – ainda que não na sua forma mais tradicional - nas palavras acima, na beleza como se exprimem sentimentos e espantos face ao Universo apresentado pela ciência? Pascal, Morin, ou Cassé podem não ser exactamente poetas, mas não deixam de estar a escrever e a cantar a poesia reivindicada por Feynman, quando descrevem o universo na forma em que o fazem.

 

 

 

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