COMENTÁRIO/ENSAIO
SOFRIMENTO E SUPERAÇÃO DO SOFRIMENTO

«Viver é sofrer», postula-se num velho texto budista, o Pali Tripitaka, numa tradição tipicamente oriental, a que o Ocidente, e nomeadamente as antigas civilizações mediterrâncias, não são estranhas. 

A Bíblia faz eco dessas tradições, em versos às vezes de grande beleza:

«Como todos, ao nascer, respirei o ar comum. Como todos, caí numa Terra de sofrimento. Como todos, a primeira coisa que fiz foi chorar».

São juízos que, obviamente, reflectem directamente a nossa condição humana, e os males continuamente à espreita. O mal é o tigre escondido, emboscado e pronto a matar os incautos», de que falam as escrituras budistas. Escondido no saco do acaso e da vida, sob a forma de doenças, acidentes infelizes da vida, ou as ameaças da morte, está sempre o sofrimento humano.

Naturalmente, a influenciar as avalições negativas da vida, não deixa de estar também a dicotomia entre os nossos sonhos e a nossa situação real, sempre muito distante desses sonhos. Somos mortais, mas temos sonhos de imortais, disse Séneca.

«Ardemos de desejo de encontrar um terreno sólido para ultimar uma fundação segura onde construir uma torre que chegue ao Infinito. Mas todas as nossas infra-estruturas rebentam, e a Terra abre-se em abismos», considerou Pascal, aludindo à mesma dicotomia.

E no entanto, há sempre o outro lado... À nossa maneira, e dentro dos limites que a realidade e o acaso nos concedem, temos também a capacidade de negar o sofrimento. Dentro de nós vive uma teimosa força instintiva, expressa em sonhos, em optimismo, em vontade de viver e de ser feliz.

«Todos somos iguais no nosso desejo de sermos felizes e de ultrapassarmos o sofrimento» (Dalai Lama). E ainda que nunca definitivamente, muitas vezes conseguimo-lo, contra a lógica dos factos e de um mundo que segrega sofrimento e crueldade.

Para o conseguirem, os antigos filósofos gregos e romanos apostaram em filosofias de vida - que passavam pela amizade e por uma via de prazeres comedidos, no caso dos epicuristas, ou por atitudes perante a vida, recusando alimentar desejos materiais insensatos, e medos, ou criando em nós o convencimento de que vale a pena viver, no caso dos estóicos.

Cícero, um dos grandes expoentes do estoicismo antigo, expressa bem essa filosofia de vida, quando afirma: «É feliz o sábio que com moderação e firmeza está tranquilo e em harmonia consigo mesmo, não se consumindo com os males, futilidades e entusiasmos, nem se enervando por medo, nem ardendo de desejos e de cobiça.»

Mas há obviamente outras vias de negar o sofrimento, ou de o minimizar. A fé, por exemplo… A crença em Deus tem sido um bálsamo e uma fonte de conforto humano. «Alegrarmo-nos de Ti, em Ti e por Ti: isso é a felicidade. E não há outra», considerou Santo Agostinho, referindo-se a Deus.

Também a arte, tem sido para muitos seres humanos, uma fonte de beleza e de fuga a um mundo cruel

O papel da arte é tornar o nosso mundo habitável», proclamou William Saroyan. A arte é um bálsamo, num mundo sem alma, de outra forma insuportável, considerou Schopenhauer.

E há também, obviamente, a amizade («A amizade redobra as alegrias e corta os males em metades», diz Francis Bacon), e o amor («Apenas a alma que ama é feliz», diz Goethe).

São algumas das vias – talvez as mais importantes - de se chegar ao que pode ser a maior das nossas vitórias – a vitória, ainda que transitória e nunca definitiva sobre o sofrimento e a crueldade do mundo.

 

 

 

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