COMENTÁRIO/ENSAIO
QUEM SOMOS? A CONDIÇÃO HUMANA

O homem continua largamente desconhecido de si mesmo.

Quem somos, no fundo de nós, por detrás das nossos nomes, das nossas opiniões convencionais, daquilo que fazemos na vida, por detrás daquilo que vemos nos outros e os outros vêem em nós, e mesmo por detrás daquilo que a ciência diz de nós?

Será que o homem é o louco sobre quem Jung ironizava, ao pedir para que lhe dessem um homem, para que ele o pudesse curar? Será que o homem é o Dr. Jerkyll que encerra dentro de si um Mister Hyde criminoso, e mais do que uma personalidade, e sentimentos contraditórios.

Será que «somos as coisas de que são feitos os sonhos», de que falava Shakespeare. Será que nos podemos elevar e transformar nos seres dotados de dignidade de que falava Pico de la Mirandola: «São as sementes que cada homem cultiva que amadurecerão e darão nele o seu fruto. Se forem vegetativas, será como uma planta. Se sensitivas, tornar-se-á brutal. Se racional, crescerá como um ser divino. Se intelectual, será como um anjo e filho de Deus»?

Spencer, ao caracterizar os indígenas do Leste Africano, há quase dois séculos, identificou facetas contraditórias que muitos autores identificam na natureza humana: «Tem simultaneamente bom carácter e coração duro; é batalhador, consciencioso, bom em determinado momento, cruel, impiedoso e violento noutro; supersticioso e grosseiramente irreligioso; valente e pusilânime, servil e dominador, teimoso e ao mesmo tempo volúvel, atido a pontos de honra, mas sem sinais de honestidade nos actos, avaro e económico, mas irreflectido e imprevidente.»

É provavelmente uma boa definição para um certo homem primitivo. Só que também somos seres culturais e seres éticos.

Somos capazes de mudar os nossos valores e comportamentos. Como diz William James, os seres humanos podem mudar as suas vidas pela alteração das suas atitudes mentais.

Podemos crescer eticamente. Podemos dominar parte dos nossos instintos e pulsões genéticas. E por isso podemos tornar-nos diferentes dos indígenas africanos descritos por Spencer.

Mais: o nosso pensamento dignifica-nos («Não é no espaço que devo procurar a minha dignidade, mas na direcção do meu pensamento», Pascal). Somos a consciência e o produto mais elaborado do Universo.

Como diz Edgar Morin, «Carregamos no seio da nossa singularidade, não apenas toda a humanidade, toda a vida, mas também todo o cosmos, incluindo o seu mistério, presente no fundo dos nossos seres». Somos seres criadores. Tudo passa pelo nosso cérebro, pelo nosso espírito. É ele que fabrica as verdades e os erros, e o que há de mais sublime no mundo.

E no entanto, o mal e a estupidez não deixam de estar presentes em nós. Às vezes caímos, somos agredidos, a vida revela-se cruel, e podemos pensar como Mark Twain e dizer que foi uma pena que Noé não tivesse chegado atrasado à arca.

No fundo encerramos em nós, também, a crueldade e a desumanidade da vida. Darwin mostrou que descendemos de formas de vida inferiores: o homem foi em tempos «arbusto e ave, e um peixe silenciosamente nadando nas águas», para usar a linguagem que Empédocles usou nas suas Purificações.

Numa perspectiva genética e evolucionista, encerramos em nós os reflexos de sobrevivência e de agressividade das formas de vida que nos antecederam. «Tudo o que ameaçava o homem das cavernas, perigos, trevas, fome, sede, fantasmas, demónios, tudo passou para o interior das nossas almas, tudo nos inquieta, nos angustia, nos ameaça por dentro» (Morin).

Acresce que somos também seres que podem diferir significativamente uns dos outros. Somos iguais, mas também diferentes. «O despertar envolve um mundo comum, mas o sono desvia cada um para o seu próprio mundo», diz, a propósito, um tanto enigmaticamente,Heraclito, que também achava que não deixamos de dormir, de viver num mundo ilusório, mesmo quando acordados.

Por todas estas razões, a célebre definição de Pascal do ser humano, na sua linguagem dura, é sem dúvida uma das mais poderosas que podemos aplicar ao ser ainda tão desconhecido que não deixamos de ser para nós próprios: «Que quimera é o homem? Que novidade, que monstro, que caos, que sujeito de contradição, que prodígio! Juiz de todas as coisas, verme imbecil; depositário da verdade, fossa de incerteza e de erro; glória e nojo do universo. Quem é capaz de deslindar esta embrulhada?»

 

 

 

Topo