COMENTÁRIO/ENSAIO
O NOSSO LUGAR NAS CADEIAS DA VIDA e no universo

«A Terra é a nossa Mãe, e nós os seus filhos», diz um velho provérbio hindu. «O homem não teceu a rede da vida - ele é um simples fio nesse rede», disse supostamente o emblemático chefe Seattle. No fundo de nós há consciência dos nossos laços à restante vida animal, mesmo quando por vezes o negamos e nos colocamos num plano superior.

Bem no fundo de nós, não gostamos de ser animais, ou de sermos meramente um animal. Sobretudo, não gostamos de ideia de sermos parentes próximos dos símios, ou descendentes de insignificantes bactérias, tal como não gostamos que a Terra e nós próprios não estejamos no centro do Universo e dos desígnios de Deus..

Por isso, digerimos mal as revelações da ciência. As reacções de repúdio sobre as nossas origens e o nosso parentesco aos símios e à restante vida animal, têm-se vindo a suceder, desde os tempos de Darwin.

Não foi por acaso que Darwin adiou durante anos a sua Origem da Espécies. Ele adivinhava as reacções que esperavam a sua obra. As ideias presentes no seu livro contrariavam a sua crença religiosa profunda, e só a sua honestidade intelectual o levou a não desistir. Não é por acaso que ainda hoje, um pouco por todo o mundo e muito particularmente nos EUA, os criacionistas têm tanto apoio, e as ideias de Darwin são tão contestadas.

A ciência veio pôr em causa a visão tradicional do homem. Com as revelações da ciência o homem deixou de beneficiar de um estatuto especial na criação e no Universo, para passar a ser apenas um produto trivial de um «relojoeiro cego», para usar a metáfora de Richard Dawkins. Passámos a ser «máquinas de sobrevivência - veículos robotizados cegamente programados de modo a  preservarmos as moléculas egoístas a que chamamos genes»…

Podemos, obviamente, contestar certas interpretações e leituras científicas. Podemos, por exemplo, achar que não somos meras «máquinas de sobrevivência», no sentido mais literal do termo, como aliás Dawkins admite, ao considerar que nascemos egoístas mas que podemos ensinar a nós mesmos «generosidade e altruísmo». Que pela compreensão do que somos e do papel dos genes em nós temos uma hipótese «contrariar os desígnios genéticos, algo a que nenhuma outra espécie aspirou.»

Mas será que podemos ou temos legitimidade em recusar a parte mais factual e documentada da ciência? Terá alguma legitimidade reacções como a de Thomas Reid, um destacado filósofo escocês do XVIII, quando ele afirmou: «Se é ilusão ser a essência humana algo venerável e digno, então deixem-me viver e morrer nessa ilusão, e não se esforcem por me abrir os olhos de modo a que veja a minha espécie sob uma luz humilhante e repulsiva»?

Se quisermos ser honestos para connosco mesmo, e abraçar a verdade, a nossa resposta só pode ser uma: não. Não temos o direito de negar os factos e ilações cientificamente sustentadas.

Uma parte de nós tende a negar a realidade. «O homem sempre lutou com todas as suas forças contra a realidade (Jean Servier). A crueldade da vida incita-nos ao sonho e à fantasia. A morte e a dor, sempre presentes ou sempre rondando, são um convite à evasão. E podemos aceitar e desculpabilizar essa nossa faceta… Faz parte das nossas fraquezas.

Mas não podemos ou devemos viver de quimeras, ilusões e sonhos, ou de ultrapassadas noções de honra, como as defendidas por Reid. Não temos que ter vergonha das nossas baixas e humildes origens. Não são elas que nos desprestigiam.

O que nos pode despromover e rebaixar, não são as origens e o nosso papel insignificante a nível do Universo revelado pela ciência, mas sim os nossos actos. O que nos pode despromover é a nossa recusa em aceitarmos a verdade, é a cobardia intelectual que leva a que aceitemos e alimentemos o mito e a inverdade.

A nossa dignidade passa pelo nosso pensamento. Passa pela nossa capacidade em descobrir, aceitar e respeitar a verdade, em nos elevarmos por via da nossa inteligência, em irmos para além das ilusões ditadas pelos nossos sentidos e em contrariar a nossa atracção por trivialidades. Está na verdade, por muito que ela quebre os nossos sonhos de imortalidade e grandeza. Não pode estar na negação da realidade.

Se queremos que a dignidade que os pensadores clássicos nos atribuíam, baseados na nossa racionalidade, tenha algum significado, não podemos negar essa mesma racionalidade, recusando as evidências e as provas científicas sobre as nossas origens e o nosso papel no Universo. «A nossa insignificância de animais humanos, não pode injuriar a consciência da nossa dignidade de homens racionais», considerou Kant, talvez de forma empolada. Será bom, de qualquer modo, que não rejeitemos tal dignidade de forma grosseira, mergulhando em versões míticas do homem.

 

 

 

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