COMENTÁRIO/ENSAIO
A BREVIDADE DA VIDA

Não podemos deixar de pensar na nossa condição existencial, na brevidade das nossas vidas, na transitoriedade de tudo. Fazemo-lo desde sempre, em todas as sociedades. A brevidade da vida aflige o espírito humano. A proximidade da morte «é fonte de angústia durante toda a vida.» (Edgar Morin).

Meditemos na forma superior como Homero exprimiu a nossa condição de seres mortais: «Insignificantes mortais que como folhas desabrocham e se aquecem de vida, e se alimentam do que a Terra lhes dá, para logo murcharem e morrerem».

Oiçamos a música triste que brota por detrás das palavras de Marco Aurélio, o imperador romano, que também foi filósofo, ao reflectir sobre a brevidade das nossas vidas: «Tudo o que é corpo passa com um curso de água, tudo o que é alma dissolve-se em sonhos e ilusões; a vida é uma campanha, uma breve estada, numa região estranha».

Ou a música dos versos do salmo 103, da Bíblia: «Os dias dos seres humanos são como a erva: como as flores do campo assim florescem, mas mal o vento sopra logo deixam de existir, e o seu lugar não mais conhecem».

São pensamentos que ultrapassam épocas e fronteiras, que mergulham na nossa alma profunda – pensamentos imbuídos de uma tristeza serena, controlada, associada à consciência de quem não pode ultrapassar a força bruta de uma realidade injusta e que esmaga.

Neles vive a dignidade da nossa consciência, a nossa capacidade de vermos para além do presente, de ultrapassarmos as nossas origens humildes, de nos assumirmos como consciência do universo vivo.

Neles está também consubstanciada a força da arte, da poesia, da beleza. Eles são uma forma de negarmos a nossa pequenez e insignificância de seres mortais. Eles situam-nos acima do mundo que nos condena ao nada. Neles clamamos contra a injustiça presente no coração da vida… A seu modo, eles imortalizam-nos.

 

 

 

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